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  Geologia
por Valter Fraga Nunes
Viamão, 800 milhões de anos

Quando Viamão surgiu?! Para alguns, Viamão surgiu quando Francisco Carvalho da Cunha recebeu a autorização para construção da Capela de Nossa Senhora da Conceição, em 14 de setembro de 1741.

Outros vão um pouquinho mais para trás e acreditam que seja quando os primeiros colonizadores portugueses, paulistas, lagunenses e espanhóis circularam pelos já conhecidos Campos de Viamão, no final do século XVII e início do século XVIII.
Alguns vão mais além, e acham que foi quando os indígenas chegaram pelas redondezas das Terras de Ibias (Ibiamon – uma das possíveis teorias sobre a origem do nome Viamão) há cerca de 12 ou 10 mil anos atrás.

Claro que estas premissas estão relacionadas com a expansão humana e a toponímia “Viamão”.
Do ponto de vista geológico, a porção geográfica na qual está localizado o município de Viamão é muito mais antiga do que se imagina ocorrendo, ao longo de milhões de anos, inúmeras modificações mesológicas expressivas até chegar na atual formatação fisionômica.


Estima-se que a Terra tenha 4,5 bilhões de anos e, deste então, está em contínuas e cíclicas transformações, alternando períodos de aquecimento e resfriamento, marcando profundas alterações na forma de vida no planeta.
Além disso, a movimentação das placas tectônicas que ora unem, ora separam, grande massas de “terra”, resultam no erguimento de cadeias de montanhas, abertura e fechamento de oceanos e mares, surgimento e desaparecimento de novas ilhas...

Portanto, trata-se de um sistema muito instável e que requer muito cuidado, principalmente quanto ao uso de ações que causam grandes impactos como, por exemplo, o uso indevido de energia nuclear (detonação de bombas nucleares), podendo provocar interferência irreversíveis nos ciclos de eventos que naturalmente ocorreriam em nosso planeta, ao longo de milênios.
Para entendermos melhor sobre esta história, precisamos retornar a tempos bem remotos.

Há mais ou menos 800 milhões de anos os continentes sul-americano e africano estavam separados pelo primitivo oceano chamado de Adamastor. Neste período começa a movimentação das placas no sentido de colisão entre os dois continentes.


Neste processo, ocorre extravasamento de magma, vulcanismo, terremotos, no meio deste oceano, formando um divisor montanhoso. Isso deu origem a um novo oceano, o Charrua.

Entre 750 e 730 milhões de anos atrás, os continentes sul-americano e africano colidiram, formando, juntamente com a Antártica, Austrália e Índia, o Continente de Gondwana.
A força desta colisão, gerou uma extensa cadeia de montanhas denominada de Cinturão Dom Feliciano. Nos limites desta colisão, muitas falhas ficaram marcadas e, duas delas, com cerca de 800 quilômetros de extensão, cruzavam a atual Região Metropolitana, chamadas de Sutura de Porto Alegre e Zona de Cisalhamento de Porto Alegre.
Os atuais morros graníticos da Região Metropolitana começaram a emergir ainda no período pré-cambriano, há mais de 550 milhões de anos, por meio de intensa erosão e espessamento destas falhas no Cinturão Dom Feliciano, causadas principalmente pelos movimentos, agora extensionais, das placas tectônicas (separação dos continentes).
Para se ter uma ideia de quanto isso é antigo, neste período não existiam vida terrícola, apenas aquática, representada por algas, corais e primitivos crustáceos.

Por milhões de anos este bloco de rocha sofreu intemperismo constante, erodindo e depositando enormes camadas sedimentares nos vales e em direção à costa, passando por Viamão.
Entre as unidades graníticas mais antigas está o Granito Viamão, que ocorre na parte leste de Porto Alegre e, obviamente, em Viamão. Caracteriza-se pelo relevo suavemente ondulado, recoberto por sedimentos originados da bacia do Rio Gravataí (norte) e Planície Costeira (leste-sul).

Por volta de 400 mil anos atrás (Pleistoceno), houve uma elevação na temperatura do planeta (períodos interglaciais), derretendo grandes massas de gelo acumulado nas montanhas polares, durante a glaciação Mindel (580-450 mil anos), dando início à primeira grande transgressão marinha que cobriu praticamente todas as áreas baixas, incluindo toda a planície viamonense, ficando emergente apenas os morros mais altos de Porto Alegre, Viamão (Itapuã e Morro Grande) e um cordão de restinga sedimentar arenosa chamada de Coxilha das Lombas (inicia em Tapes, atravessa Viamão, passando por Santo Antonio da Patrulha, terminando em Osório).

Durante a regressão marinha, a barreira formada pela Coxilha das Lombas isolou o sistema lagunar do Guaíba-Gravataí.
A segunda transgressão ocorreu há cerca de 325 mil anos, em menor intensidade, penetrando principalmente no Norte e no Leste, deixando em sua regressão depósitos sedimentares na região do Vale do Gravataí, das Águas Claras, Pimenta e Lombas, em direção ao litoral.

As duas últimas transgressões (120 mil e 5 mil anos atrás), praticamente definiram a atual conformação do território viamonense, o sistema de lagoas litorâneas e a delimitação da costa sul-rio-grandense.

Atualmente estamos vivendo um período interglacial que, segundo a maioria dos especialistas em climatologia, com tendência ao resfriamento e por consequência em direção a uma nova era glacial, a qual ainda não sabemos precisar quando atingirá seu ápice. Provavelmente será além de 50 mil anos.
Após a próxima glaciação, a fisionomia do atual município de Viamão poderá apresentar alterações, é só esperar para ver!

Portanto, quando me perguntam: quantos anos tem Viamão, eu respondo: Tens tempo?! Pois a resposta pode ser um tanto prolongada.
"Desenho:" Valter Fraga Nunes,
http://www.geomaps.com.au/scripts/guerillabay.php
e Atlas Ambiental de Porto Alegre.
Valter Fraga Nunes - O autor
Nascido em Viamão, dia 4 de março de 1962, é filho de Luiz Cabral Nunes e Vanda Fraga Nunes. Estudou no Grupo Escolar Setembrina, no Colégio Castelo Branco (no tempo que era junto ao Stella Maris) e na Escola Técnica Agrícola (um dos melhores momentos de sua vida, que guarda com muito carinho).

Licenciado em Ciências Biológica pela Unisinos e com mestrado em Botânica na Ufrgs, é funcionário público federal desde 1981 e pesquisador do Núcleo de Pesquisa Histórica de Viamão Mario Curtis Giordani, com ênfase sobre Tropeirismo.
Membro suplente do Conselho de Cultura de Viamão, no segmento sobre Patrimônio Cultural, é um dos coordenadores da Tropeada Cristóvão Pereira de Abreu.
Pessoa de vida simples, normalmente bem-humorado, mas quando perde as estribeiras, é melhor icar longe. Gosta de conviver com a natureza, mas não dispensa tecnologia, principalmente de comunicação.
Acha que as duas coisas bem balanceadas coexistem bem (tecnologia e natureza). Aprecia toda lida do sítio, principalmente manter a horta e icar perto dos familiares e animais que mais lhe correspondem com carinho que são os cachorros, a mula “Meia Noite” e os burros “Guri” e “Raschi”, parceiros de muitas tropeadas pelo Rio Grande afora.

Não tem muitas ambições na vida, que já passou de meio século. Quer apenas viver tranquilo e continuar pesquisando, estudando e aprendendo sobre as origens e as tradições do povo gaúcho e do movimento tropeiro que transformou o continente sul-americano, integrando o Brasil de Norte a Sul.